segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Muda a foto, muda a noticia.
As fotografias de Mauro Restiffe, que integram o projeto Fotojornalismo, ilustram reportágens publicadas em jornais. Mas elas não são fotos informativas, como normalmente vemos nas páginas dos jornais. Mudou a foto. Mudou a notícia?
O acampamento Farroupilha não é feito somente das muldidões, do chimarrão e do churrasco. Mauro nos mostra a árvore que cresce entre piquetes, o cavalo que espera a liberdade, a pessoa que descanssa... deitada no banco.
A nostalgia das fotos analógicas em preto e branco trazem à reflexão a tensão entre os excessos da sociedade da informação e a visão literária do cotidiano. Afinal, por que quando tratamos do nosso dia a dia, o fazemos com ares de notícia desinteressada? A beleza se encontra onde abrirmos nossos olhos, onde direcionamos nosso olhar: pode ser ao cachorro que cheira o musgo, no avô que corre com seu neto, no cheiro do café da manhã, no frescor das árvores, no muro grafitado, no fruteiro sorridente, no gato que senta à janela.
Existem diferentes modos de ver o mundo e de expressar sobre ele. Para garantir a riqueza da diversidade deve existir também espaço e olhos abertos.
sábado, 7 de novembro de 2009
A morte como vantagem...

segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Uma sociedade de medalhões
O conto de Machado de Assis, intitulado Teoria do Medalhão, apresenta um diálogo entre pai e filho, na noite em que este completa vinte e um anos de idade. Nesta conversa, o pai expressa ao seu filho, por ele ter entrado, agora, em sua maioridade, a grande vontade que tem de vê-lo tornar-se um medalhão, ou seja, um homem tido como importante pela sociedade, grande e ilustre, acima da obscuridade comum. Para isso, durante uma hora, ele prescreve a conduta que o filho terá de tomar para conquistar esse grande feito.
Primeiramente, ele deverá fugir de todas as atividades que o levem a refletir e ter idéias. Seu pai o aconselha, “...reduzes o intelecto, por mais pródigo que seja, à sobriedade, à disciplina, ao equilíbrio comum” (p. 65). Por isso, nos seus discursos, Janjão, o projeto de medalhão, nunca irá acrescentar algo novo ou de sua autoria, mas sim, recorrerá a frases feitas, consagradas ao longo da História, porque “essas fórmulas têm a vantagem de não obrigar os outros a um esforço inútil” (p. 66). Também, ao ler um livro, estudo ou qualquer escrito de mestres e oficiais da ciência, nunca deve questioná-los, para assim, não correr o risco de aflorar novas idéias, além também, de ser um oficio muito tedioso e cansativo.
Um perfeito medalhão sabe como recorrer à publicidade. Fazer seu nome ser notado, através de atos que demonstrem seu grande afeto pelas instituições da sociedade, e depois, lembrado com notícias que, mesmo não tendo nenhuma importância, aludam seu nome, é parte do seu sucesso. Depois disso, ao invés de procurar as ocasiões, elas virão até ele, que será o adjetivo fundamental a elas. Janjão também poderá se apropriar da metafísica, pois, segundo seu pai, além dela apaixonar os partidos e o público, também já está formulada e pronta para o uso. Por fim, é prescrito ao futuro medalhão para ele não se arriscar na filosofia ou mesmo na ironia. O riso transmitido por ele, deve ser somente a chalaça, grande companheira dos que nada tem a dizer.
Pode-se perceber a profunda ironia de Machado de Assis, referindo-se aos “grandes homens” da sociedade, aos medalhões, como pessoas que nada criam, inovam ou arriscam. Inertes em sua arrogância, são eles que têm poder e graça na sociedade. Acredito que o pai recomenda ao filho não pensar, porque, se fosse assim, grandes chances teria ele de despertar do dogmatismo em que se encontra. Uma pessoa assim não sofre porque não pensa, mas acaba por viver a vida de outros. Para o pai de Janjão, ele está definitivamente maior. Kant discordaria. Eu também.
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
As gruas que sustentam a imensidão
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Eu o escrevi em 2004, há cinco anos, mas espero que gostem. Ele fala um pouco sobre a finitude da vida e de como o modo como a vivemos parece retornar a nós no momento de nossa morte.
Matheus de Mesquita Silveira
Falaram-me que hoje iria chover e eu não acreditei. Agora estou aqui, ensopado e com frio, perdido no labirinto de prédios do centro da cidade. Consigo ouvir o melancólico assovio do vento que passa por entre os arranha-céus. A neblina não me deixa ver nada do que está ao meu redor. As trevas, rasgadas pela fraca luz que sai dos postes, esconde segredos que me angustiam somente ao pensar, e nenhum outro som consigo ouvir além dos frios passos que dou em direção ao desconhecido.
Acendo um cigarro, na esperança de que a fumaça que emana dos meus pulmões possa me camuflar entre as densas brumas. A cada passo que dou tenho a sensação de que pode ser o meu último, mas o mais estranho é que essa sensação me traz um alívio. Saber que poderei ter meu fim na próxima esquina me deixa mais vivo, faz meu coração bater mais forte. Sentir o cheiro da morte que espreita na escuridão me faz delirar, sonhar com o dia em que me libertarei de todas as amarras e de todas as culpas.
Sigo caminhando, deixando o vento cortar minha pele como uma pequena navalha. Vou me retalhando aos poucos, deixando que o vento leve o aroma do sangue até meus supostos predadores. Cansei de ser o caçador, não mais desejo dominar ou retalhar, minha sede assassina se esvaiu junto com as últimas gotas de sangue do amor que eu matei. Sigo, ainda que trêmulo, ao encontro do meu algoz. Caminho como a presa que inocentemente invade o território inimigo, sem ter a consciência dos perigos que a aguardam.
Trilhei muitas vezes esse caminho e fiz muitas vítimas nessas trevas. Bebi o sangue quente das mais inocentes criaturas e saciei minha sede das mais variadas formas. Mas o estranho é que nunca me senti tão bem como agora. O medo do fim e a agonia da suposta dor que irei sentir me completam, me tornam um. O suor frio que escorre em meu rosto, a chuva que molha minhas roupas e o sangue que forma meu rastro, tudo isso me completa, como que se o delírio e a lucidez dessem as mãos e dançassem uma valsa não tocada por muito tempo.
Apresso os meus passos e sinto o meu coração bater mais forte. O som dos trovões se mescla às batidas em meu peito numa harmonia catatônica, como um forte bate-estaca. Sou só em meio às trevas, como que um sussurro da lua no meio da noite infinda, como a última vela que não se apaga. Mas essa chama quer ser apagada, ela chegou ao auge, a plenitude e não deseja sentir sua decadência. Ela anseia o fim antes que tudo desmorone, embora saiba que isso não mais possível.
A chuva parou e o vento não mais pode ser sentido. Os estragos estão feitos e as cartas estão postas, não há tempo para mais nada. Na escuridão surge a silhueta de uma bela mulher, refletindo a fraca luz da lua que passa por entre as nuvens que se dissipam. Sim, lá está ela, minha executora, a dama destinada e me dar o último beijo. Aquela cujos profetas disseram que aliviaria toda a agonia, que cicatrizaria todas as feridas. A amazona cujas presas não morrem, mas se libertam.